Receita para Saúde Mental

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meirelles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittegenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meirelles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem única, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de políticos que tivessem depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software “equipamento macio”. Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam guardados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos de hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos e somente símbolos podem entrar dentro dele. Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou… Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que seguirem a risca, “saúde mental” até o fim de seus dias.

Opte por um software modesto. Evite coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranqüiliza-se, há uma vasta literatura em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre as mesmas coisas com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.

Mas, como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá esquecido de como eles eram…

Rubem Alves

@giselecgs

Anúncios

Tabacaria – Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

@giselecgs

RODA VIVA – Moacyr Scliar

@giselecgs

 

Rubem Alves e Moacyr Scliar conversam sobre o corpo e a alma. Uma abordagem médico-literária

Com uma linguagem inédita em seu gênero, a obra traz uma conversa entre os dois autores sobre doenças da alma, como melancolia, inveja, culpa, além de abordar o poder mítico do médico, o poder da cura pela palavra e a questão da felicidade que parece ser, como diz Guimarães Rosa, “um raro momento de distração”. Uma leitura fluente e inspiradora, indispensável para todos os que, de vez em quando, gostam de parar para refletir sobre as grandes e pequenas questões da vida.

Fontes: Saberes editora e daqui

Leiam,

@giselecgs

 

O Centauro no Jardim

Vale a pena ler esse livro, do saudoso médico e escritor Moacyr Scliar, saiba um pouco mais em: CENTAURO NO JARDIM

Observação:esse “resumo” da obra deixa de lado alguns aspectos do livro que são os mais importantes, como o conflito entre o que somos e o que mostramos a sociedade e mais algumas coisinhas …

Leiam!

A imagem é daqui

@giselecgs

Correr é bom!

“Correr é bom.Meus amigos correm todos os dias de manhã,dão pelo menos seis voltas em torno ao parque,dizem que é para evitar enfarte.Dizem também que a corrida clareia a mente,que o cérebro,agitado dentro do crânio,libera todas as preocupações,as obsessões.Pode-se ver até uma nuvenzinha de vapor se elevando da cabeça de grandes corredores”.
 Mas eu sei que não é por isso que correm.Correm por correr,porque é bom;não fossem as limitações de tempo e de espaço,e os compromissos assumidos,e as famílias,e tudo o mais,correriam em linha reta,iriam para bem longe,para o paraíso dos risonhos corredores,o lugar cujos limites a gente,por mais que corra,jamais ultrapassar;o lugar onde todos só fazem correr-uns de abrigo azul-marinho,outros de calção branco,uns de tênis,e outros em bando;correndo e conversando;correndo e comendo sanduíches,correndo e cagando,correndo sem parar,como eu corria naquela noite-mas felizes,(sem o medo que eu tinha.)”

Em O CENTAURO NO JARDIM,Moacyr Scliar

Imagem daqui

@giselecgs

Lágrimas e Testosterona

Lágrimas e testosterona

Moacyr Scliar

Atenção, mulheres, está demonstrado pela ciência: chorar e golpe baixo. As lágrimas femininas liberam substâncias, descobriram os cientistas, que abaixam na hora o nível de testosterona do homem que estiverem por perto, deixando o sujeito menos agressivos. Os cientistas queriam ter certeza de que isso acontece em função de alguma molécula liberada — e não, digamos, pela cara de sofrimento feminina, com sua reputação de derrubar até o mais insensível dos durões. Por isso, evitaram que os homens pudessem ver as mulheres chorando. Os cientistas molharam pequenos pedaços de papel em lágrimas de mulher e deixaram que fossem cheirados pelos homens. O contato com as lágrimas fez a concentração da testosterona deles cair quase 15%, em certo sentido deixando-os menos machões.

(Publicado no caderno Ciência, 7 de Janeiro de 2011)

Ele vivia furioso com a mulher. Por, achava ele, boas razões. Ela era relaxada com a casa, deixava faltar comida na geladeira, não cuidava bem das crianças, gastava de mais. Cada vez porém, que queria repreendê-la por urna dessas coisas, ela começava a chorar. E aí, pronto: ele simplesmente perdia o ânimo, derretia. Acabava desistindo da briga, o que o deixava furioso: afinal, se ele não chamasse a mulher à razão, quem o faria? Mais que isso, não entendia o seu próprio comportamento. Considerava-se um cara durão, detestava gente chorona.

Por que o pranto da mulher o comovia tanto? E comovia-o à distância, inclusive. Muitas vezes ela se trancava no quarto para chorar sozinha, longe dele. E mesmo assim ele se comovia de uma maneira absurda.

Foi então que leu sobre a relação entre lágrimas de mulher e a testosterona, o hormônio masculino. Foi urna verdadeira revelação. Fina! mente tinha uma explicação lógica, científica, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas diminuíram a testosterona em seu organismo, privando-o da natural agressividade do sexo masculino, transformando o num cordeirinho.

Uma idéia lhe ocorreu: e se tomasse injeções de testosterona? Era o que o seu irmão mais velho fazia, mas por carência do hormônio.

Com ele conseguiu duas ampolas do hormônio. Seu plano era muito simples: fazer a injeção, esperar alguns dias para que o nível da substância aumentasse em seu organismo e então chamar a esposa à razão.

Decidido, foi à farmácia e pediu ao encarregado que lhe aplicasse a testosterona, mentindo que depois traria a receita. Enquanto isso era feito, ele. de repente caiu no choro,um choro tão convulso que o homem se assustou: alguma coisa estava acontecendo?

É que eu tenho medo de injeção, ele disse, entre soluços. Pediu desculpas e saiu precipitadamente. Estava voltando para casa. Para a esposa e suas lágrimas.

Moacyr Scliar, que morreu no último dia 27/02/2011, à 1h. aos 73 anos, escrevia na coluna “Cotidiano” do jornal “Folha de São Paulo”, às segundas-feiras um texto de
ficção baseado em notícias publicadas no jornal. Esta é a última coluna do
médico e escritor publicada naquele espaço.

Este texto, inédito, foi enviado pelo escritor ao jornal no dia 11/01/2011 , antes de sofrer um AVC (acidente vascular cerebral), no dia 17/02/2011.

Daqui

@giselecgs

Alucinações musicais: relatos sobre a Música e o Cérebro – Oliver Sacks

A música tem o poder de nos transportar para as “alturas” e/ou para as “profundidades” da emoção. Seu poder é eficaz em relembrar nosso
primeiro encontro amoroso, em nos persuadir a comprar, em nos tornar alegres ou tristes, em nos oferecer prazer e paz. Mas esse poder vai muito mais além: na verdade, a música, dependendo da situação e da condição do ouvinte, pode representar momentos quase insuportáveis de irritação e tortura, provocar convulsões, como no caso de um paciente epilético do autor que tem convulsões quando ouve qualquer tipo de música e, por esta razão, anda com tampões de ouvido na cidade de Nova York. Mas a música também pode provocar o efeito contrário do alívio para o sintoma de certas doenças neurológicas. São essas relações intrigantes do homem com a música, a maioria relacionada a alterações perceptivas e neurológicas, que são apresentadas na obra de Oliver Sacks, neurologista reconhecido internacionalmente, traduzido para o português brasileiro por Laura Teixeira Motta, sob o título “Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro”, do original em língua inglesa, “Musicophilia: Tales of Music and the Brain”. Obra lançada em outubro de 2007, pela Companhia da Letras em São Paulo, oferece ao leitor uma coletânea de casos clínicos comentados pelo Dr. Oliver, que se apresenta à literatura, com seu próprio gênero literário, oferecendo um material com as suas digitais. Seguindo seu toque distinto, ele escreve não apenas como médico e cientista, mas também como um humanista com tendências filosóficas. Neste sentido, ele é capaz de equalizar e conjugar duas áreas do conhecimento: neurociência médica e arte musical, passeando pelos mistérios do cérebro humano e pela profundidade e complexidade da música.

Sem dúvida, àqueles que apreciam os escritos de Sacks encontrarão, nesta obra, narrativas peculiares deste autor que continua um participante ativo em suas histórias clínicas; aqui ele mistura as experiências de seus pacientes com suas próprias experiências. Em um dos capítulos, o autor discute as alucinações musicais, incluindo o caso da própria mãe. Ele também relata seu caso de “amusia” adquirida. Assim, ele consegue a empatia do leitor, ao se revelar do outro lado do texto. Ele divide esta publicação em quatro partes, a saber:

“Perseguidos pela música” – descreve casos de pacientes que reportam que há determinados fragmentos musicais que não saem da sua cabeça. Eles tentam deixar de ouvi-los, mas eles estão lá e eles não sabem o que fazer para se livrar deles; e a música continua tocando, descontrolada e repetitiva, atrapalhando as atividades cotidianas. Há narrações sobre: “musicofilia” obsessiva, que surge abruptamente logo após a um dano cerebral; epilepsia “musicogênica”, onde determinadas músicas frequentemente “disparam” as crises convulsivas; epilepsia musical, onde as músicas fazem parte do conteúdo das convulsões; imagens evocadas pela música e “brainworms” (traduzido como “verme do cérebro”, em linguagem popular: “minhoca na cabeça”, mas aqui, a minhoca está relacionada à música), fragmentos musicais e imagens que continuamente insistem em “povoar” os pensamentos.

“A variação da musicalidade” – traz à tona os talentos e os cérebros musicais discutindo se há diferenças nos cérebros de músicos e não músicos; ouvido absoluto – a capacidade de identificar tonalidades sonoras fora do seu contexto; amusia e desarmonia; o ouvido imperfeito: amusia coclear; a sinestesia e a música.

“Memória, movimento e música” – discorre sobre o efeito da música sobre casos de amnésia retrógrada, memória emocional e preservação da memória musical, lesão cerebral, Parkinson, Tourette, membro fantasma, desordens do movimento – distonia do músico – relacionando a música como forma de tratamento.

“Emoção, identidade e música” – descreve os sonhos musicais, música e drogas psicodélicas, música e depressão, demência e musicoterapia, os aspectos musicais do autismo, emoções e música. Nesta sessão, fica enfatizada a importância da música, mostrando que ela pode se um recurso terapêutico para orientar um paciente quando mais nada é capaz de fazê-lo.

Resumindo, o livro contém 29 capítulos independentes, cada um falando sobre excessos e perdas relacionadas à música. Há relatos de pessoas que tem a capacidade de enxergar cores quando pensam em uma nota musical; de guardar sinfonias inteiras e até um vasto repertorio – os savants; de aprender novas partituras e de tocar e improvisar ao piano mesmo com perda severa de memória; de experimentar uma compulsão irresistível por ouvir música de piano, após ter sido atingido por um raio, e se tornar um pianista, mesmo sem
talento musical e interesse por música; ouvir melodias, mas não distinguir os ritmos; ter alucinações musicais, como reação a uma surdez progressiva. Os poderes terapêuticos da música vêm sendo “namorados” e acumulados pelo autor, ao longo de sua vida profissional. Ele tem presencia do pacientes que reagem bem ao ouvirem música, obtendo conforto para seu sofrimento, quando nenhuma medicação é capaz de fazê-lo. Esse flerte fica oficialmente deflagrado em sua obra “Tempo de despertar”, onde ele descreve os efeitos surpreendentes da música nos seus pacientes. Agora, ele dedica toda a presente obra a este assunto. E, como em obras anteriores, Sacks tenta disponibilizar o mundo da neurologia para os leigos deixando, na medida do possível, a linguagem científica para os trabalhos acadêmicos, usando linguagem leiga para se aproximar do leitor comum. Essa, talvez, seja a tônica de seu sucesso enquanto escritor e divulgador científico.
Porém, conjugar duas áreas do conhecimento em uma só obra, tem seus percalços.

Não é tarefa simples encontrar um leitor com noções mínimas de Neurociências e Música ao mesmo tempo. Assim, apesar da tentativa de tornar o texto científico claro para o leitor leigo, há momentos em que as descrições técnicas podem parecer um tanto cansativa. Ainda assim, é um livro recomendado não somente para leigos, mas para todos aqueles profissionais de saúde e outros profissionais – médicos, psicólogos, musicoterapeutas, pessoas envolvidas com a área das neurociências – que sabem que o organismo humano é sensível à música, e este requisito pode ser usado multidisciplinarmente para fins terapêuticos.

Sem sombra de dúvidas, além de abrangente, o autor conseguiu mostrar que a música é capaz de “descongelar” as avenidas neurológi-
cas devolvendo mobilidade, ritmo, fala e fluência, recobrando lembranças, controlando tiques e impulsos, enfim, devolvendo qualidade de vida.

Benetti, IC. Resenha do livro “Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro”. Rev Neurocienc 2009; 17(3): 301-3.

@larissaomfaria

A Música no seu Cérebro: A Ciência de uma Obsessão Humana – Daniel Levitin

“Qual é o papel da música na evolução da espécie humana?”, pergunta o neurocientista Daniel J. Levitin em determinada passagem de seu mais recente livro: ‘A música no seu cérebro: a ciência de uma obsessão humana’ (no original, ‘This Is Your Brain on Music: The Science of a Human Obsession’).

Por que certas músicas grudam como chiclete em nossa cabeça, enquanto outras são esquecidas como jornal de ontem?

De fato, o conteúdo das 364 páginas do livro condiz com o título de Levitin – que, antes de se tornar cientista, trabalhou como músico, engenheiro de som e produtor musical: o cara é obcecado por como a música é produzida, entra nos tímpanos e chega até as células que regulam a emoção no cérebro.

O livro investiga, por exemplo, por que certas músicas grudam como chiclete em nossa cabeça, enquanto outras são esquecidas como o jornal de ontem.

Às vezes, soa como um “à procura da batida perfeita”, porque Levitin tenta destrinchar “agudo/grave”, “o fá sustenido menor op. 66 de Chopin” e “a guitarra de One of these nights, dos Eagles”.

É um detalhamento e uma busca que encontram no funcionamento do cérebro a resposta – a música, para o autor, é praticamente uma necessidade física (tal qual a linguagem), tamanha a sua importância nas nossas vidas.

E daí, há vários detalhamentos científicos, como a explicação minuciosa dos cálculos que nosso lobo frontal faz para dizer: “gostei” ou “não gostei” da canção.

Sobre Beatles, Levitin diz: “Em Lady Madonna, os quatro Beatles cantam com as mãos em forma de concha diante da boca numa pausa instrumental, e nós juramos que estamos ouvindo saxofones, em virtude ao mesmo tempo do timbre diferente que produzem e de nossa expectativa (de cima para baixo) de que faria sentido incluir saxofones numa canção desse tipo.”

A graça da obsessão de Levitin está justamente aqui. Quando ele consegue misturar sua verve científica – que se traduz com o uso de conceitos novos da neurociência, como, por exemplo, neurônios-espelho – com um tratamento pop no conteúdo e na linguagem.

A pergunta inicial de Levitin – “Será que determinadas regiões e caminhos evoluíram em nosso cérebro especificamente para produzir e ouvir música?” – é respondida pela metade na obra. A ciência, segundo o próprio, ainda está caminhando para a solução da questão. O livro é uma tentativa mais consolidada de dizer “sim”, nós fomos feitos para a música, e não a música foi feita para nós.

Fonte: http://resenhasbrasil.blogspot.com

Com certeza uma boa dica para os amantes da música!

@larissaomfaria

Um Estranho no Ninho – Ken Keysey

Best-seller influente do autor norte-americano Ken Kesey, escrito em 1958, “Um Estranho no Ninho” foi transformado em filme de grande sucesso em 1975 pelo diretor tcheco Milos Forman. O filme ganhou cinco Oscars, prêmios da Academia de Filme Britânica, Globos de Ouro, e o prêmio de Filme do Ano da Sociedade Americana de Críticos de Filme, entre outros, o que estabeleceu um recorde nunca mais igualado).

É a estória de Randall McMurphy (interpretado por Jack Nicholson, em um desempenho atordoante), um preso rebelde que finge ser louco para ser transferido para o que ele pensou ser um lugar mais fácil de viver, o asilo de loucos…

O enredo é altamente eficaz em retratar o sanatório, o uso de drogas, os eletrochoques e a lobotomia como métodos de repressão do livre arbítrio humano. Ele foi tremendamente influente, uma vez que foi lançado durante a década louca dos ano setenta, com o movimento dos hippies, rebeliões de estudantes esquerdistas e a guerra do Vietnã. A audiência é conduzida de modo apoiar os internos, ao invés de seus guardiães. Como tal, o filme ajudou no sentido que o eletrochoque e a lobotomia passassem a serem considerados ” ferramentas politicamente incorretas “, métodos indesejáveis e ditatoriais da sociedade estabelecida para impor castigo e submissão às suas normas.

Ambos, livro e filme, com certeza devem estar na lista dos 100 que você não pode morrer sem ler ou assistir.

@larissaomfaria

Ficha técnica:
Título do filme: Estranho no Ninho
Título Original: One Flew Over the Cuckoo`s Nest
Ano: 1975
Direção: Milos Forman
Roteiro: Bo Goldman, Lawrence Hauben
Elenco: Louise Fletcher (Enfermeira Mildred Ratched), Christopher Lloyd (Taber), Danny DeVito (Martini), Brad Dourif (Billy Bibbit), Jack Nicholson (Randle Patrick McMurphy), William Redfield (Harding), Michael Berryman (Ellis), Peter Brocco (Coronel Matterson), Will Sampson (Chefe Bromden).

Trailer oficial do filme:

Entradas Mais Antigas Anteriores

"Um simples cérebro, sendo bem mais longo do que o céu, pode acomodar confortavelmente o intelecto de um homem de bem e o resto do mundo, lado a lado." Emily Dickinson
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." Nelson Rodrigues
"Cada um pense o quiser e diga o que pensa" Espinosa
"O animal satisfeito dorme" Guimarães Rosa
%d blogueiros gostam disto: