Uma mente brilhante

O drama de Brian Wilson – por Brian Levine

Ascensão, queda e retorno do líder dos Beach Boys mostram a importância das funções executivas do cérebro para a criatividade.

O que diferencia o mero talento do gênio criativo? Ninguém sabe ao certo.

Sabemos, no entanto, que muitas obras-primas da arte e grandes descobertas científicas partiram de homens e mulheres na faixa dos 20 anos – idade suficiente para a aquisição de habilidades técnicas, mas não de vícios típicos das gerações mais velhas. Estudos indicam que pessoas muito criativas estão mais sujeitas a certas doenças mentais graves. Em alguns casos, os distúrbios contribuem para a realização de feitos notáveis, ainda que, posteriormente, possam arruinar a vida dos autores.

Talvez nenhuma outra história exemplifique melhor como uma doença mental pode estimular a criatividade, e depois acabar com ela, que a de Brian Wilson, o líder da banda Beach Boys.

Aos 22 anos, ele já havia renovado a música folk e alcançado enorme sucesso junto com os Beach Boys. Dezesseis canções da banda estiveram nas paradas americanas entre 1962 e 1965, como Surfin’ USA, Little deuce coupe e I get around. Arranjador, produtor e principal compositor do grupo, Brian Wilson marcou sua geração com o lançamento de Pet Sounds, em 1966. Considerado um divisor de águas da música pop moderna, esse álbum introduziu novas técnicas de estúdio, temas introspectivos e estruturas harmônicas e rítmicas complexas baseadas no jazz e na música clássica. Para o célebre maestro e compositor Leonard Bernstein, Wilson é um dos maiores compositores do século XX. Segundo Paul McCartney, Pet Sounds foi a principal influência de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o histórico álbum dos Beatles, de 1967.

Infelizmente, não tardou muito para que a importância do trabalho de Wilson fosse ofuscada por seus problemas mentais. Aos 20 e poucos anos – idade em que muitos distúrbios psiquiátricos se manifestam -, ele começou a ter dificuldades no relacionamento social, depressão, paranóia, que logo evoluíram para alucinações. O quadro progrediu durante a década seguinte e por muitos anos ele foi incapaz de se comportar como membro comum da sociedade, muito menos como bem-sucedido produtor musical.

O papel dos lobos frontais

Doenças mentais progressivas como a de Brian Wilson levam à deterioração da função executiva do cérebro – a capacidade dos lobos frontais de planejar, coordenar e executar ações complexas, de forma semelhante ao trabalho do diretor de uma empresa. A definição precisa da função executiva cerebral e sua influência sobre o comportamento ainda são motivos de debate entre os neurocientistas. Mas o caso de Wilson fornece ótimas pistas. Trinta anos depois, ele ressurge saudável, de volta aos palcos. Sua história dramática mostra a importância da função executiva não apenas para a criatividade, mas também para a capacidade de lidar com o cotidiano. Com ele aprendemos que tratamento e apoio adequados, tanto psiquiátrico quanto familiar, podem criar mecanismos importantes de compensação.

Os lobos frontais organizam uma série de funções cognitivas superiores que controlam processos de níveis mais baixos, o que permite transformar um amontoado confuso de peças de quebra-cabeça em um todo coerente. Pense no planejamento de uma longa viagem. O “diretor” do cérebro, que trabalha nos lobos frontais, coloca em seqüência e prioriza diversas etapas de execução e cria um plano para atingir o objetivo que inclui opções para serem usadas apenas em caso de mudança ou problemas.

Como os lobos frontais interagem com diversos sistemas e estruturas cerebrais, as funções executivas são muito sensíveis a doenças do cérebro, distúrbios psiquiátricos e abuso de drogas. Apesar disso, seu papel primordial e suas vulnerabilidades ainda não são tão bem compreendidas ou reconhecidas como outras capacidades mentais, como memória e percepção, mais facilmente avaliadas em laboratório. Além do mais, por serem mais requisitadas em situações novas e não estruturadas, pacientes com disfunções executivas geralmente parecem normais quando submetidos a testes neurológicos e psicológicos de rotina. Por isso esses distúrbios costumam não ser diagnosticados mesmo em pessoas muito comprometidas.

As inovações musicais de Pet Sounds coincidiram com o início da psicose de Wilson, caracterizada pelo “afrouxamento” das conexões entre as idéias. (Não conversei com ele nem vi sua ficha médica, mas muitas fontes convergem para uma descrição que especialistas reconheceriam como psicose. Algumas delas são os livros autorizados The Beach Boys, de David Leaf, e The nearest faraway place: Brian Wilson, the Beach Boys, and the Southern California experience, de Timothy White; documentários como A&E biography; entrevistas com o próprio Wilson, como a de Larry King Live, em 2004.)

A doença mental não torna a pessoa criativa. Mas alguns indivíduos dotados de habilidades artísticas eventualmente podem transformar a debilidade de suas conexões em associações muito inspiradas. Apesar disso, a pessoa pode ter dificuldade para aproveitar esses insigths, justamente porque suas percepções estão desordenadas pela psicose. A doença de Wilson é muito solitária, e talvez ele tenha retratato isso na canção Till I die, de 1971: I’m a cork on the ocean / Floating over the raging sea…. I’m a leaf on a windy day / Pretty soon I’ll be blown away…. (Sou uma rolha no oceano / Flutuando sobre o mar em fúria. Sou uma folha em dia de ventania / Muito em breve serei levado para longe.).

O ponto crítico ocorreu no fim de 1964 – Wilson sofreu um esgotamento nervoso durante um vôo para Houston. Para evitar o stress da estrada, interrompeu a turnê com os Beach Boys e se concentrou no trabalho de estúdio e de composição. Os resultados apareceram em dois álbuns lançados em 1965, The Beach Boys Today! e Summer Days (and Summer Nights!!), que já anunciavam tendências musicais que o consagrariam mais tarde.

Em Pet Sounds, Wilson queria se distanciar dos temas anteriores, ligados a surfe, carros e garotas, e para isso chamou Tony Asher para ajudá-lo nas letras das canções. Seu método de composição começava pelo piano, no dedilhar de sensações, fragmentos melódicos ligados a um determinado estado de espírito. Quando entrava no estúdio de gravação, já tinha em mente o arranjo completo, que em seguida era desconstruído para ensinar a cada músico a parte relativa a seu instrumento (de cordas, trompas e acordeões até jarras d´agua, buzinas de bicicleta e uma engenhoca eletrônica que produzia sons fantasmagóricos e depois ficou famosa em canções como Good vibrations). Wilson costumava mostrar os arranjos pessoalmente, pois era capaz de tocar quase todos os instrumentos. A caixa Pet Sounds Sessions, de 1996, contém cenas de estúdio em que Wilson aparece como líder visionário de 23 anos, dirigindo músicos experientes para concretização de sua obra-prima.

Os vocais dos Beach Boys foram os últimos elementos gravados no disco. Apenas Wilson sabia como as partes iriam se encaixar, mas depois de reuni-las no estágio final de produção, o resultado foi sobrenatural. Nas notas que acompanham Pet Sound Sessions, o então editor-chefe da revista Billboard escreveu: “O que brilha mais forte por trás, dentro e acima desse material extraordinário é a presença de uma coisa inominada: a crença inabalável no poder perene daquilo que o ser humano tem de melhor”.

Gravar faixas com diversos instrumentos e organizá-las de forma coerente e convincente são atividades que exigem o gerenciamento de conjuntos de informação mantidos na memória de curto prazo – uma função essencialmente executiva. Enquanto outros produtores da época gravavam canções relativamente simples com o grupo todo de uma só vez, Wilson era capaz de memorizar complexas harmonias e arranjos sinfônicos, gravar cada parte separadamente e depois reunir eletronicamente as peças do quebra-cabeça. A canção Good vibrations, que o próprio Wilson chamou de “sinfonia de bolso”, foi gravada em 17 sessões em diversos estúdios. Fez tanto sucesso que até hoje é considerada uma das melhores canções pop da história. Good vibrations representou o casamento definitivo da criatividade com funções executivas e foi responsável por uma renovação da música popular americana.

Como alguém pôde ser capaz de tamanha façanha, que envolve concentração e percepção, enquanto sofria de uma doença mental grave? Os sintomas psicóticos não são estáticos – eles vão e voltam. É provável que sua produtividade fosse maior na fase de remissão dos sintomas, quando novas associações criativas podiam ser manipuladas e integradas de forma coerente por seus poderes musicais e executivos.

Ocaso criativo

A exuberância criativa de Wilson logo deu lugar à gravidade de sua doença mental progressiva. O equilíbrio entre inspiração e capacidade cognitiva foi finalmente rompido em 1967, quando ele e o letrista Van Dyke Parks montavam o álbum Smile.

Seus lapsos cognitivos diziam respeito ao monitoramento de resultados – função executiva que permite ao indivíduo comparar suas ações com suas intenções, monitorar e corrigir erros e idéias ruins. Em Pet Sounds, ele havia aproveitado com maestria idéias musicais incomuns, como buzinas de bicicleta, para invocar temas da infância perdida. Já em Smile, os resultados foram bizarros: durante a gravação de Mrs. O\\’Leary\\’s cow, seu piano foi colocado num tanque de areia e os músicos tiveram de usar capacete de bombeiro. Mas por ser tido como gênio, as pessoas geralmente perdoavam suas excentricidades, em vez de considerá-las sintomas graves. A gravação original de Pet Sounds revela mais uma falha de monitoramento: a mixagem final não eliminou ruídos de conversas no estúdio – algo inaceitável para seu grau de perfeccionismo.

Entre depressão e psicose

Depois de finalizar os elementos de Smile, Wilson simplesmente não sabia o que fazer para reuni-los, e Parks deixou o projeto. Pressionado pela Capitol Records, emocionalmente frágil e sem apoio dos parceiros, ele abandonou Smile em meados de 1967. Naquele verão, Jimi Hendrix literalmente tocou os sinos que anunciavam a morte da surf music no Festival Pop de Monterey.

Intercalada por surtos de depressão suicida e psicose, a saúde mental de Wilson deteriorou-se progressivamente. Seu consumo habitual de drogas, que já poderia ser uma tentativa de autotratamento dos sintomas (algo comum em pacientes psicóticos), intensificou-se. Houve alguns surtos de criatividade, que nunca se equipararam, em amplitude e complexidade, ao seu trabalho anterior. Dificuldades para assumir o papel de pai e problemas com a esposa finalmente resultaram na separação em 1978. Nos início dos anos 80, ele chegou a pesar 136 quilos e passou 2 anos e meio deitado numa cama. Entre períodos de hospitalização e desintoxicação, o tratamento psiquiátrico sofreu muitas interrupções.

Devido a sua imensa notoriedade, os problemas mentais logo se tornaram públicos. A mídia o tratou como maluco. E como é comum acontecer com portadores de distúrbios executivos, sua condição o deixou vulnerável à exploração. Seu próprio psicólogo, Eugene Landy, assumiu a coordenação da sua vida e da sua carreira em meados dos anos 70 e depois novamente entre 1983 a 1991. Embora Landy tenha conseguido afastá-lo das drogas e ajudá-lo a emagrecer, ele criou uma relação perniciosa de dependência com o paciente: prescrevia drogas psicotrópicas, agia como conselheiro de negócios e tentava colaborar com o artista até mesmo na composição e na interpretação das canções. O psicólogo acabou sendo processado pela familía de Wilson em 1990. Antes disso, porém, havia perdido a licença para exercer a profissão no estado da Califórnia, depois de admitir ter administrado drogas a Wilson de forma ilegal.

Ao longo da década de 90, ele passou por tratamentos mais convencionais, com medicamentos e psicoterapia. Nesse período, estabeleceu um relação estável com Melinda, sua segunda mulher. Em entrevista a Larry King, o casal revelou o diagnóstico: transtorno esquizoafetivo – uma combinação de sintomas da fase ativa da esquizofrenia (delírios, alucinações, discurso desorganizado) alternados por períodos de depressão.

Com o apoio da mulher e dos colegas, Wilson voltou a aparecer publicamente, gravar discos e tocar sozinho ou acompanhado por outros músicos, como o antigo guitarrista dos Beach Boys Jeff Foskett.

Os avanços no tratamento do transtorno esquizoafetivo contribuíram muito para o retorno de Wilson. Depois de mais de 30 anos, ele decidiu finalizar Smile, que havia sido considerado um dos melhores álbuns não-lançados da música contemporânea. Felizmente, a disfunção executiva não compromete diretamente a memória ou as habilidades musicais adquiridas. Afeta apenas a capacidade de empregá-las de modo flexível, particularmente em situações não-estruturadas, nas quais não há respostas claras do que é certo ou errado, exatamente como na criação de disco.

Lançado em 2004, Smile foi aclamado pela crítica e pelo fãs do mundo todo. O sucesso é atribuído à qualidade do material original e à direção e ao apoio dos que o ajudaram a juntar as peças – pessoas que forneceram uma “prótese” para seus lobos frontais comprometidos. Segundo Timothy White, da revista Billboard, Wilson reconheceu essa necessidade já em 1976, quando disse numa sessão de gravação: “Alguma coisa aconteceu com a minha concentração. Não sei exatamente o que, mas por alguma razão ela está mais fraca. Perdi a capacidade de me concentrar o suficiente para seguir até o fim”.

Wilson voltou a se apresentar ao vivo, sentado ao teclado, embora não toque tanto quanto antes. Sua voz é irregular, mas ainda aceitável. Nada disso realmente importa para os fãs que reconhecem a lenda viva que ele é. Seu apogeu criativo foi atingido quando era muito jovem, a despeito (ou talvez em parte por causa) da doença mental que lhe roubou habilidades cognitivas e quase o destruiu. Seu retorno aos palcos demonstra que, com tratamento apropriado e apoio, pessoas afetadas por disfunções executivas podem atuar em áreas muito especializadas, apesar da persistência dos sintomas.

Durante esse longo e triste período, alguns membros da família Beach Boys partiram. Dennis, irmão de Wilson e o coração da banda, afogou-se em 1983. Outro irmão, o guitarrista Carl, morreu de câncer em 1998. Embora Pet Sounds tenha sido um jóia da época, o ambiente político, cultural e musical que deu origem a Smile, em 1966, logo se transformou em território de violência, guerra e inocência perdida.

Parafraseando o psicólogo canadense Endel Tulving, a flecha do tempo corre em linha reta, mas a memória nos permite dar voltas para revisar o passado e reaver, mesmo que em fantasia, o que foi perdido. Se a ressurreição pública de Brian Wilson reforça essa esperança, então Smile é uma curva de 37 anos. Talvez esse álbum responda a um propósito que ultrapasse a excelência de sua música – a necessidade de acreditar que é possível recuperar o que foi perdido.

Brian Levine é pesquisador do Centro de Cuidados Geriátricos Baycrest do Instituto de Pesquisa Rotman, em Toronto, e professor associado de psicologia e neurologia da Universidade de Toronto. Músico amador, é fã de Brian Wilson.

Vi aqui

Em agosto de 2010, Brian Wilson lançou o álbum Brian Wilson Reimagines Gershwin, que reúne no total 14 versões para as composições de George Gershwin, entre elas, duas canções que estavam inacabadas e que foram finalizadas pelo próprio Wilson, ‘The Like in I Love You’ e ‘Nothing but Love’.

Por fim, posto o vídeo da canção “God only knows”, composta por B. Wilson em parceria com T. Asher.
Brian relata que é sua música favorita da época dos Beach Boys, tanto pela melodia como pela letra.

É a minha favorita também.

@larissaomfaria

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Para sempre Alice (Lisa Genova)

Sinopse:
Alice sempre foi uma mulher de certezas. Casada e mãe de três filhos já adultos, ela é professora titular em Harvard, uma especialista de renome mundial. Perto de completar 50 anos, Alice começa a esquecer. No início, coisas sem importância, como o lugar em que deixou o celular, até que, um dia, ela se perde a caminho de casa. Um diagnóstico inesperado altera para sempre sua vida e sua maneira de se relacionar com a própria família e o mundo. E, quando não há mais certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade. De alguma forma e apesar de tudo, Alice é para sempre.

Trecho do livro:
“Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo. Esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância.”

Para saber mais do livro e da autora.

Para saber mais sobre a doença de Alzheimer.

Para quem realmente quer se atualizar no assunto.

@larissaomfaria

devoradora de cérebros

Nunca duvide do potencial de periculosidade de uma ameba.

Naegleria fowleri, também conhecida como ameba que comedora de cérebro, é causadora da meningoencefalite amebiana primária (MAP), uma infecção do Sistema Nervoso Central de evolução clínica rápida, resultando em alto índice de mortalidade.

Não é a toa que está no Top 5 das Doenças Infecciosas

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@larissaomfaria

"Um simples cérebro, sendo bem mais longo do que o céu, pode acomodar confortavelmente o intelecto de um homem de bem e o resto do mundo, lado a lado." Emily Dickinson
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." Nelson Rodrigues
"Cada um pense o quiser e diga o que pensa" Espinosa
"O animal satisfeito dorme" Guimarães Rosa
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