Alucinações musicais: relatos sobre a Música e o Cérebro – Oliver Sacks

A música tem o poder de nos transportar para as “alturas” e/ou para as “profundidades” da emoção. Seu poder é eficaz em relembrar nosso
primeiro encontro amoroso, em nos persuadir a comprar, em nos tornar alegres ou tristes, em nos oferecer prazer e paz. Mas esse poder vai muito mais além: na verdade, a música, dependendo da situação e da condição do ouvinte, pode representar momentos quase insuportáveis de irritação e tortura, provocar convulsões, como no caso de um paciente epilético do autor que tem convulsões quando ouve qualquer tipo de música e, por esta razão, anda com tampões de ouvido na cidade de Nova York. Mas a música também pode provocar o efeito contrário do alívio para o sintoma de certas doenças neurológicas. São essas relações intrigantes do homem com a música, a maioria relacionada a alterações perceptivas e neurológicas, que são apresentadas na obra de Oliver Sacks, neurologista reconhecido internacionalmente, traduzido para o português brasileiro por Laura Teixeira Motta, sob o título “Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro”, do original em língua inglesa, “Musicophilia: Tales of Music and the Brain”. Obra lançada em outubro de 2007, pela Companhia da Letras em São Paulo, oferece ao leitor uma coletânea de casos clínicos comentados pelo Dr. Oliver, que se apresenta à literatura, com seu próprio gênero literário, oferecendo um material com as suas digitais. Seguindo seu toque distinto, ele escreve não apenas como médico e cientista, mas também como um humanista com tendências filosóficas. Neste sentido, ele é capaz de equalizar e conjugar duas áreas do conhecimento: neurociência médica e arte musical, passeando pelos mistérios do cérebro humano e pela profundidade e complexidade da música.

Sem dúvida, àqueles que apreciam os escritos de Sacks encontrarão, nesta obra, narrativas peculiares deste autor que continua um participante ativo em suas histórias clínicas; aqui ele mistura as experiências de seus pacientes com suas próprias experiências. Em um dos capítulos, o autor discute as alucinações musicais, incluindo o caso da própria mãe. Ele também relata seu caso de “amusia” adquirida. Assim, ele consegue a empatia do leitor, ao se revelar do outro lado do texto. Ele divide esta publicação em quatro partes, a saber:

“Perseguidos pela música” – descreve casos de pacientes que reportam que há determinados fragmentos musicais que não saem da sua cabeça. Eles tentam deixar de ouvi-los, mas eles estão lá e eles não sabem o que fazer para se livrar deles; e a música continua tocando, descontrolada e repetitiva, atrapalhando as atividades cotidianas. Há narrações sobre: “musicofilia” obsessiva, que surge abruptamente logo após a um dano cerebral; epilepsia “musicogênica”, onde determinadas músicas frequentemente “disparam” as crises convulsivas; epilepsia musical, onde as músicas fazem parte do conteúdo das convulsões; imagens evocadas pela música e “brainworms” (traduzido como “verme do cérebro”, em linguagem popular: “minhoca na cabeça”, mas aqui, a minhoca está relacionada à música), fragmentos musicais e imagens que continuamente insistem em “povoar” os pensamentos.

“A variação da musicalidade” – traz à tona os talentos e os cérebros musicais discutindo se há diferenças nos cérebros de músicos e não músicos; ouvido absoluto – a capacidade de identificar tonalidades sonoras fora do seu contexto; amusia e desarmonia; o ouvido imperfeito: amusia coclear; a sinestesia e a música.

“Memória, movimento e música” – discorre sobre o efeito da música sobre casos de amnésia retrógrada, memória emocional e preservação da memória musical, lesão cerebral, Parkinson, Tourette, membro fantasma, desordens do movimento – distonia do músico – relacionando a música como forma de tratamento.

“Emoção, identidade e música” – descreve os sonhos musicais, música e drogas psicodélicas, música e depressão, demência e musicoterapia, os aspectos musicais do autismo, emoções e música. Nesta sessão, fica enfatizada a importância da música, mostrando que ela pode se um recurso terapêutico para orientar um paciente quando mais nada é capaz de fazê-lo.

Resumindo, o livro contém 29 capítulos independentes, cada um falando sobre excessos e perdas relacionadas à música. Há relatos de pessoas que tem a capacidade de enxergar cores quando pensam em uma nota musical; de guardar sinfonias inteiras e até um vasto repertorio – os savants; de aprender novas partituras e de tocar e improvisar ao piano mesmo com perda severa de memória; de experimentar uma compulsão irresistível por ouvir música de piano, após ter sido atingido por um raio, e se tornar um pianista, mesmo sem
talento musical e interesse por música; ouvir melodias, mas não distinguir os ritmos; ter alucinações musicais, como reação a uma surdez progressiva. Os poderes terapêuticos da música vêm sendo “namorados” e acumulados pelo autor, ao longo de sua vida profissional. Ele tem presencia do pacientes que reagem bem ao ouvirem música, obtendo conforto para seu sofrimento, quando nenhuma medicação é capaz de fazê-lo. Esse flerte fica oficialmente deflagrado em sua obra “Tempo de despertar”, onde ele descreve os efeitos surpreendentes da música nos seus pacientes. Agora, ele dedica toda a presente obra a este assunto. E, como em obras anteriores, Sacks tenta disponibilizar o mundo da neurologia para os leigos deixando, na medida do possível, a linguagem científica para os trabalhos acadêmicos, usando linguagem leiga para se aproximar do leitor comum. Essa, talvez, seja a tônica de seu sucesso enquanto escritor e divulgador científico.
Porém, conjugar duas áreas do conhecimento em uma só obra, tem seus percalços.

Não é tarefa simples encontrar um leitor com noções mínimas de Neurociências e Música ao mesmo tempo. Assim, apesar da tentativa de tornar o texto científico claro para o leitor leigo, há momentos em que as descrições técnicas podem parecer um tanto cansativa. Ainda assim, é um livro recomendado não somente para leigos, mas para todos aqueles profissionais de saúde e outros profissionais – médicos, psicólogos, musicoterapeutas, pessoas envolvidas com a área das neurociências – que sabem que o organismo humano é sensível à música, e este requisito pode ser usado multidisciplinarmente para fins terapêuticos.

Sem sombra de dúvidas, além de abrangente, o autor conseguiu mostrar que a música é capaz de “descongelar” as avenidas neurológi-
cas devolvendo mobilidade, ritmo, fala e fluência, recobrando lembranças, controlando tiques e impulsos, enfim, devolvendo qualidade de vida.

Benetti, IC. Resenha do livro “Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro”. Rev Neurocienc 2009; 17(3): 301-3.

@larissaomfaria

Um Antropólogo em Marte – Oliver Sacks

Em um ANTROPÓLOGO EM MARTE – Sete histórias paradoxais, Oliver Sacks, neurologista de renome e escritor aplaudido, traz ” histórias de metamorfoses possibilitadas pelo acaso neurológico, mas metamorfoses em estados alternativos do ser, outras formas de vida, não menos humanas pelo fato de serem tão diferentes.”(Parte integrante do PREFÁCIO).
Cada história desse livro é relacionada a um paciente com sua devida síndrome neurológica, abordando aspectos clínicos e também da individualidade desses pacientes.O livro foi dedicado a esses personagens reais que possibilitaram a Oliver Sacks grandes sacadas do cérebro humano.
Trecho dos AGRADECIMENTOS : “(…) todos os estudos clínicos, por maior que seja o empreendimento, por mais profunda que seja a investigação, devem retornar aos casos concretos, aos indivíduos que os inspiraram e sobre quem eles discorrem (…)

Por isso:

Não pergunte que doença a pessoa tem, mas que pessoa a doença tem.
(atribuído a ) WILLIAM OSLER

Trecho do LIVRO:”(…) Muitas pessoas com síndrome de Tourette ficam embaraçadas e angustiadas, retiram-se do mundo e se fecham.Não era o caso de Bennett:lutou contra isso, enfrentou e venceu na vida, enfrentou as pessoas e a mais improvável das profissões.Todos os seus pacientes, eu acho, percebem isso, e é esta uma das razões por que confiam tanto nele. (…)”

Vale a pena ler!

Mais informações sobre a Síndrome de Tourette aqui

@giselecgs

"Um simples cérebro, sendo bem mais longo do que o céu, pode acomodar confortavelmente o intelecto de um homem de bem e o resto do mundo, lado a lado." Emily Dickinson
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." Nelson Rodrigues
"Cada um pense o quiser e diga o que pensa" Espinosa
"O animal satisfeito dorme" Guimarães Rosa
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