Esportes: quando o ‘barato’ torna-se um vício

Atividade física é uma das maiores promotoras de saúde e bem-estar, mas é preciso cuidado para evitar que ela se torne um vício que resulta em consequências desastrosas para o corpo e a mente.

Vício. Palavra associada a práticas socialmente aceitas como danosas, como consumo de drogas, cigarro, álcool etc. Difícil colocá-la na mesma frase com esporte. Não é ele que livra das drogas, do cigarro, do abuso do álcool? Mas há de se fazer um adendo: exagero é sempre negativo, não importa exagero de quê, mesmo de atividade física.

E essa não é uma realidade de poucos. Em 2010, uma pesquisa do Cepe (Centro de Estudos em Psicobiologia do Exercício) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) apontou que 28% dos 400 atletas avaliados em todo o País são viciados em exercícios físicos. “O vício ou, como é melhor descrito, a ‘dependência de exercício’ é determinada por meio de um questionário que verifica comprometimento, tolerância, abstinência, continuidade e envolvimento”, explica o pesquisador Vladimir Modolo.

O estudo ouviu 200 atletas profissionais de elite e 200 praticantes amadores de atividade física de diversas modalidades. Em comum, uma frequência mínima de cinco dias de treinamento por semana. Os voluntários responderam a um questionário que abordava tolerância da prática e abstinência na falta de exercícios, o quão importante é a atividade em seu quadro social e o quanto o atleta seria capaz de abrir mão da prática esportiva em função de outras atividades. “Este questionário é aplicado em conjunto com outros instrumentos de avaliação de perfil de humor (ansiedade, depressão, agressividade, qualidade de vida, qualidade de sono, etc.). Daí identificamos se existe o componente ‘dependência’ e o quanto isto já afeta este atleta.”

Não é o primeiro estudo na área – a primeira descrição do tipo na literatura médica data da década de 70 – mas nunca atletas profissionais haviam sido ouvidos para pesquisas semelhantes.

Além da constatação dessa dependência em número considerável, os pesquisadores descobriram que quem pratica esportes individuais, como a corrida, está mais propenso a desenvolver esse comportamento. “Ainda tentamos avaliar o porquê. A hipótese é que, quando o indivíduo pratica exercício individualmente, há uma cobrança muito maior. No coletivo, a divisão de responsabilidade ameniza o risco”, afirma Modolo.

Na comparação entre homens e mulheres, o perfil é semelhante, mas, enquanto elas se preocupam mais com a imagem corporal, eles exageram por afirmação social e para saciar a competitividade. Outro dado relevante mostra que o número de ‘dependentes’ é equilibrado entre profissionais e amadores, diferentemente do que se pensava, uma vez que os primeiros dependem do esporte para sustento.

O vício pelo esporte é tanto físico quanto psicológico, devido à pressão da sociedade para ter um corpo perfeito. “Durante o exercício, produzimos uma maior quantidade de endorfinas, substâncias que atuam no cérebro e estão ligadas a sensações de prazer, euforia, bem-estar e analgesia e são elas que fazem o atleta buscar cada vez mais sessões de exercício físico, o que já caracteriza um quadro de tolerância, ao ponto de atletas viciados trocarem compromissos familiares e profissionais por conta da prática compulsiva de exercícios”, explica Modolo. É neste ponto que o ‘barato do corredor’ (do inglês runner’s high) se torna prejudicial.

É importante frisar que essas reações químicas em resposta ao exercício são efetivamente benéficas. “Um estudo publicado no periódico Neuroscience confirmou que os exercícios físicos aumentam a síntese da proteína BDNF – fator neurotrófico derivado no cérebro – no hipocampo, região do cérebro que controla a aprendizagem e a memória. Repare que isso é um dos estudos, que na verdade considero o mais importante a ser levado em conta. O BDNF auxilia e fortalece a sinapse no cérebro”, informa o psicólogo esportivo Paulo Ribeiro. “Na verdade, superar limites tem relação mais próxima a dificuldades pessoais do que cerebrais. Pessoas que atravessam ou atravessaram fases muito difíceis tendem a se confrontar com situações que exigem delas um maior grau de ativação e autoestima, a fim de modificar um estado de coisas interno que não mais lhe dá prazer ou que lhe impeça de desenvolver seu potencial na totalidade.”

O problema é que essa sensação aumenta quanto mais treinado o indivíduo, uma vez que os iniciantes tendem a apresentar cansaço e dores musculares mais rapidamente e esse estado de euforia está ligado à intensidade e duração do exercício. Ou seja, os mais bem condicionados ficam com essa sensação prazerosa por mais tempo e de forma mais intensa. O corpo, então, acostuma-se a essas substâncias e uma interrupção nos treinos faz com que o organismo reaja como num período de abstinência de drogas. “Quem nem cogita perder um dia de treinamento, de corrida, de ginástica, etc., pode estar tão viciado quanto quem consome heroína, por exemplo. Uma tal sensação de euforia toma conta do praticante e funciona, como dizem alguns autores, como o ‘barato do corredor’. Situação similar à sensação ilusória do bem-estar causado pelo uso da cocaína por lhe deixar mais ‘ligado’, mais desinibido”, compara Ribeiro.

A solução, então, é não parar de treinar? Aí o prejuízo vai para articulações, tendões, vida social. A solução é não chegar a esse ponto. Entretanto, não é o que o treinador Ronaldo Martinelli, da Bio Running, vê em seu cotidiano. O profissional afirma que são muitos os casos de dependência entre os corredores. “Geralmente acontece com pessoas mais experientes e que já passaram por diversos desafios, como completar uma maratona ou um ironman. Muitos criam esta dependência por já ter incorporado um estilo de vida totalmente voltado ao esporte. Novas metas e novos desafios é que movem estas pessoas. O fato de não treinar um dia pode levá-la a crer que não estará tão bem preparada a enfrentar o próximo desafio”, classifica. A preocupação exagerada com o corpo também pode levar a extremos. “Existem aqueles que se preocupam com a aparência e a falta de gasto calórico um dia pode levá-las a crer que ficarão obesas ou que ganharão alguns quilos tão difíceis de perder.”

A saída, para o treinador, é conversar com o aluno. “É a única maneira que temos de intervir neste tipo de situação. É claro que também é nossa função identificar os sintomas, mas, muitas vezes, só a conversa não adianta. Neste caso, o ideal é indicar um psicólogo do esporte. Mas infelizmente são poucos os que procuram este tipo de profissional”, lamenta.

O risco de exagerar na dose é maior entre aqueles que não têm acompanhamento profissional, já que as cargas de treinamento são decididas sem uma base apropriada. “Os efeitos disto para as articulações são extremamente prejudiciais e em alguns casos podem levar o indivíduo ao fim da carreira esportiva. É algo muito sério, mas que muitos se dão conta só quando estão com algum problema”, alerta Martinelli.

Outra consequência é a chamada vigorexia, a dependência ao exercício. Trata-se de um transtorno devido ao qual as pessoas que praticam esportes de forma contínua são tão fanáticos, que não se importam com eventuais prejuízos à saúde ou recomendações médicas.

Perfil

O corredor dependente passa a ser acometido por gripes constantes, alergias, rinites e sinusites, uma vez que, ao consumir energia demasiada por meio da atividade física, há rebaixamento do sistema imunológico, tornando-o mais suscetível a ficar doente do que normalmente estaria. As lesões também parecem nunca curar totalmente. Tais problemas podem estar relacionados tanto ao aparelho locomotor, como no caso de tendinites, bursites, fraturas por estresse, quanto ao metabolismo, no caso de insônia, agitação e taquicardia, por exemplo. Mais fraco, o corredor sente uma fadiga permanente, mesmo no período de repouso, e se vê incapaz de realizar os movimentos com a mesma eficácia de antes.

É difícil identificar o excesso pela carga de treinamento, já que o ritmo de exercícios varia de acordo com o indivíduo e seus objetivos. Um dos primeiros sinais é a mudança na vida social. “Ultrapassar os limites do seu corpo, deixar de estar com os amigos em virtude da prática exacerbada de atividades físicas são sinais de que algo não vai bem. Sua vida pode estar vazia, sem mais interesse na afetividade/amor, nos relacionamentos, na introspecção, no isolamento social, etc. Daí uma compensação excessiva nessa prática que tinha tudo para ser saudável e passa a ser nociva”, explica Ribeiro. “A pessoa é considerada viciada quando determinada prática interfere no desenvolvimento de outras atividades, sejam elas profissionais, sociais, familiares ou psicológicas.”

Levando em consideração sua experiência do cotidiano, Martinelli acredita que são mais raros os casos em que a família é deixada para trás. “Em relação à família é mais difícil acontecer, mas é possível, sim. A pessoa que já chegou neste nível realmente precisa de atenção. Talvez nem seja o fato de vigorexia, mas porque encontrou na corrida uma forma de descarregar os problemas, estresses, entre outros. Tenho vários atletas que são viciados em esporte, mas acredito que todos eles têm um relacionamento bom com suas famílias, filhos, esposas, maridos, até porque isto pode influenciar na performance da pessoa. A família, em alguns aspectos, é super importante em qualquer atividade. O apoio é fundamental para quem busca um desafio ou completar uma meta mais difícil, como uma maratona, por exemplo. A pessoa que deixa de lado a família pode indicar que talvez tenha algum problema de relacionamento com a mesma ou que realmente mergulhou num vício perigoso.”

Em compensação, segundo o treinador, os compromissos sociais são, sim, os que mais sofrem quando há dependência. “Um viciado em corrida realmente dá menos importância a essas coisas. Muitos não hesitam em deixar de lado um jantar para treinar no dia seguinte. O mesmo acontece se tem que participar de alguma prova. Em relação a isto, não sei se é errado ou certo, mas posso dizer que é possível conviver com este vício desde que os amigos e a família jamais sejam esquecidos. Apesar da corrida ser benéfica, é preciso deixar claro os malefícios do exagero, quando o praticante só tem um tema a falar e em qualquer situação. Neste caso, até os assuntos profissionais ficam em segundo plano. Para quem quer ter vida longa no esporte, o equilíbrio é fundamental”, alerta Martinelli.

Quanto aos sinais físicos, o mais comum é a maior suscetibilidade a lesões. “Além disso, o rendimento, ao invés de melhorar, piora”, identifica Martinelli. Nesse caso, é indicado procurar um médico para medir níveis hormonais e marcadores das substâncias aumentadas durante o exercício. Se o vício for diagnosticado, o tratamento deve ser multidisciplinar, com acompanhamento psicológico, uso de medicamentos e ajuste no ritmo de exercícios.

Essa investigação pode, por exemplo, levar à conclusão de que o problema não é a corrida em si, mas sim outros fatores com os quais o indivíduo terá que lidar. “Quando essas questões passam a ser tratadas de maneira extrema pela pessoa é sinal de que algo precisa ser revisto. Não estaria esse praticante com algo a menos em sua vida afetiva?”, questiona Ribeiro. “Essa é uma das inúmeras questões que envolvem os viciados em exercício.”

Para o pesquisador Modolo, é possível descrever um perfil de quem geralmente exagera na dose. “Em geral, pessoas com uma preocupação excessiva com o corpo ou com sua imagem corporal, que são extremamente controladas nas suas atividades diárias dedicadas aos exercícios e que apresentam quadros de abstinência quando impossibilitadas de praticar exercício.” Para Ribeiro, no entanto, o quadro é mais amplo e, para identificá-lo, deve-se levar em conta questões físicas. “De tudo é possível, de tudo mesmo. Na verdade, pessoas com esse perfil têm certamente algum transtorno psicológico que precisa ser investigado e, acima de tudo, tratado, pois todo excesso é passível de cuidado e atenção, pois ao contrário do que pensam, uma bioquímica cerebral digamos, desencontrada, pode ser tratada como qualquer transtorno psicológico.”

Mal encoberto

O grande ‘problema’ para se compreender que há um exagero e que este é prejudicial está no fato de que a atividade física é propagandeada como essencialmente saudável. E isso não deixa de ser verdade nunca, apesar dos cuidados necessários para evitar exageros. “A atividade física é talvez a principal ferramenta na promoção de saúde, prevenindo ou melhorando quadros de hipertensão, diabetes, doenças do coração, obesidade, etc. E também uma ótima ferramenta quando falamos em saúde mental, proporcionando bem-estar, melhoras nos quadros de ansiedade e depressão e até como prevenção de doenças como Parkinson. Porém, a prática compulsiva pode levar a um vício que, de certa forma, cria um paradoxo, causando malefícios fisiológicos (diminuição da imunidade, alterações hormonais, etc.) e problemas psicológicos (aumento da ansiedade, depressão, transtornos compulsivos, anorexia ou vigorexia, etc.)”, contextualiza Modolo.

Para Ribeiro, não é o caso dos tênis serem vendidos com alertas, como o cigarro e a bebida, do tipo ‘se correr, não exagere’. A solução passa por instrução e compromentimento. “Inicialmente é complicada essa história de convencimento (de que o esporte pode ser prejudicial). Na verdade, cada vez mais as informações dos meios de comunicação são importantes e dão conta de como se deve praticar exercícios físicos de maneira comprometida com a ciência. É importante informar a necessidade de orientação quanto à prática benéfica dos exercícios físicos, pois somente dessa forma poderemos convencê-lo a ter uma visão mais global de uma corrida, por exemplo, qual o tênis mais apropriado, qual indumentária mais eficaz e assim por diante”, defende.

Assim como há trabalho na área da conscientização, a procura dos pesquisadores não terminou. “Estamos investigando quais doses destas substâncias de prazer estão desencadeando o transtorno, se existe outras vias de vício envolvidas e qual o tratamento mais adequado. Para mulheres, é fundamental que investiguemos também transtornos alimentares ou de imagem corporal, pois este grupo tende a praticar atividades físicas com uma preocupação estética maior que o masculino”, revela Modolo.

Faça uma revisão de sua relação com a corrida:

> O vício pela corrida não é uma doença em si, mas pode causar danos à saúde;
> Exageros podem ser reflexo da luta com o espelho ou da falta de desafios em outras áreas da vida pessoal;
> O chamado ‘barato da corrida’, resultado da ação de neurotransmissores que controlam as emoções, pode estimular que o atleta continua praticando a atividade mesmo sem estar fisicamente apto;
> Não se deve treinar todo dia, sob o risco de emitir ao corpo um sinal de que a corrida é uma atividade fundamental, como comer e dormir;
> Os exageros podem ser combatidos com planejamento e acompanhamento de profissional de Educação Física e médicos do esporte;
> Para ajudar a entender o porquê desse comportamento, a ajuda de um psicólogo é bem-vinda.

Sintomas psicológicos:

> Aumento da ansiedade e irritabilidade;
> Crises de depressão e variações de humor;
> Diminuição do tempo de sono;
> Sensação de agitação e taquicardia;
> Dificuldade de manter relações fora do ambiente da corrida.

Sintomas fisiológicos:

> Alterações hormonais;
> Aumento da tolerância (necessidade de mais sessões de treino para obter o mesmo resultado);
> Crises de abstinência;
> Aumento da fadiga e estagnação dos resultados;
> Lesões (tendinites, bursites, fraturas por estresse, etc.) que nunca curam completamente e são recorrentes;
> Queda da resistência do sistema imunológico (gripes constantes, alergias, rinites e sinusites).

Fonte: http://www.multiesportes.com.br
Matéria publicada originalmente na edição número 84 da Revista Corredores S/A

@larissaomfaria

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

"Um simples cérebro, sendo bem mais longo do que o céu, pode acomodar confortavelmente o intelecto de um homem de bem e o resto do mundo, lado a lado." Emily Dickinson
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." Nelson Rodrigues
"Cada um pense o quiser e diga o que pensa" Espinosa
"O animal satisfeito dorme" Guimarães Rosa
%d blogueiros gostam disto: