Consumo de Ritalina

Psicóloga: Ao invés de reverem a educação, usam Ritalina

Ana Cláudia Barros

 

O aumento do consumo de Ritalina na rede municipal de saúde de São Paulo não
é pontual. O Brasil é o segundo país que mais utiliza o Cloridrato de
Metilfenidato (princípio ativo do medicamento), perdendo apenas para os Estados
Unidos, destaca a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene
Proença. A substância é adotada no tratamento de Transtorno de Déficit de
Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Não são poucas as hipóteses levantadas para explicar esse crescimento. Na
avaliação de Marilene Proença, a Ritalina, apelidada pelos críticos de “droga da
obediência”, tem sido adotada como subterfúgio para escamotear falhas no sistema
educacional.

– Estamos tendo uma precarização da qualidade do ensino oferecido para alunos
na fase de alfabetização. Se a criança não está atenta na escola, se não está
escrevendo corretamente como deveria, isso é um problema educacional,
pedagógico. Quer dizer que não estamos conseguindo dar conta de uma
alfabetização adequada. Mas de repente, há uma epidemia de crianças que não
prestam atenção? Não faz sentido. Nasceu uma geração que não presta atenção? A
geração anterior prestava e a atual não presta? – indaga Marilene, que também é
membro da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e
Educacional.

– Consideram que o fato de o aluno não aprender não tem a ver com a questão
pedagógica, mas é um problema dele, como se fosse algo orgânico que tivesse
dificultando a aprendizagem. A mudança de comportamento estaria sendo feita pela
medicação, e não por uma pedagogia adequada – completa.

Já para a professora titular do Departamento de Pediatria da Unicamp, Maria
Aparecida Moysés, há uma tentativa de “abafamento dos questionamentos”.

– Ritalina e Concerta (também tem o Metilfenidato como príncipio ativo) estão
sendo prescritos para crianças que incomodam. Existe uma pressão da indústria
farmacêutica, mas creio que há também o ideário de um abafamento de
questionamentos, de normalização das pessoas. Todos homogêneos. Pode ser que não
seja esse o objetivo, mas é o que acaba acontecendo, porque toda criança que
questiona tem TDAH. Você medica e aborta o questionamento. Estamos cada vez mais
usando remédio para tudo. Não há mais gente triste. Há gente deprimida. A
tristeza incomoda. Te mandam tomar um Prozac. A vida está sendo retirada de
cena, porque é irregular, caótica, tem altos e baixos, diferenças. O que está
acontecendo é que quem não se submete é quimicamente assujeitado.

Quadro nacional

De acordo com a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene
Proença, os conselhos regionais da categoria irão promover ações locais para
“levantar a problemática em seus estados”.

– Até novembro, esperamos ter um quadro nacional – afirma.

Dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos mostram
que de 2000 a 2008, a venda de caixas de metilfenidato saltou de 71 mil para
1.147.000, um aumento de e 1.615%. Os números não consideram receitas de
medicamentos manipulados ou comprados pelo poder público.

A comercialização da Ritalina é regulada pela Agencia Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). Embora o medicamento – classificado no anexo da Portaria
344/98, na lista das substâncias psicotrópicas -, só possa ser adquirido com
receita especial, é fácil consegui-lo clandestinamente. Uma breve busca pela
internet revela que não são esporádicas as ofertas da droga.

Relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados
(SNGPC) da Anvisa de 2009 – dado mais atualizado da entidade sobre o
metilfenidato – destacou que há vários estudos e questionamentos quanto ao uso
massivo e efeitos secundários da substância, “pois sua utilização já está
ocorrendo entre empresários, estudantes, para emagrecimento e até em uso
recreacional na forma triturada como pó ou diluído em água para ser
injetado”.

O relatório informa ainda que a maior preocupação em relação ao Cloridrato de
Metilfenidato está, na verdade, relacionada ao seu “mau uso”, e não à utilização
da substância nos casos de TDAH. Mas pondera ao ressaltar que o medicamento não
é indicado para todos os pacientes da doença. O documento acrescenta :

– Segundo estudo publicado em 2009, somente entre 2002 e 2006, a produção
brasileira de metilfenidato cresceu 465 por cento. Sua vinculação ao diagnóstico
de TDAH tem sido fator predominante de justificativa para tal crescimento. Mas
os discursos que circulam em torno do tema e legitimam seu uso também contribuem
para o avanço nas vendas.

A psicoterapeuta Cacilda Amorim, do Instituto Paulista de Déficit de Atenção
(IPDA), ressalta que as exigências do mercado de trabalho têm provocado aumento
na procura por estimulantes cognitivos.

-Hoje, existe uma pressão muito grande para o desempenho de qualidade,
principalmente em adultos, em situações de trabalho que não garantem as
condições mínimas para que isso seja possível. Em qualquer área, a quantidade de
coisas que se espera que a pessoa faça, aprenda, desenvolva. Se não desenvolver,
ela se sente inadequada.

“zombie like”

Crítica implacável do tratamento com Ritalina, a professora da Unicamp, Maria
Aparecida Moysés afirma que a aparente calma promovida pela droga em crianças
não é efeito terapêutico, mas “sinal de toxicidade”.

– Tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e a cocaína. Ele é um
derivado de anfetamina. É essa a complicação. Ele age aumentando a concentração
de dopamina nas sinapses. A dopamina é um neurotransmissor associado às
sensações de prazer.Não é todo mundo que fica mais concentrado. Em torno de 40,
50% ficam mais focado, que é o efeito da anfetamina e da cocaína. Mas foca a
atenção no que passar na frente, não necessariamente nos estudos.

Segundo ela, as reações adversas acontecem em todo os órgãos.

– No sistema nervoso central, você tem psicose, alucinação, suicídio, que não é desprezível, cefáleia, sonolência, insônia. Um dos mais importante é um efeito que, em farmacologia, é chamado de “zombie like”. A pessoa fica contida em si mesma. Passa a agir como se estivesse amarrada. No sistema cardiovascular, por exemplo, os efeitos são hipertensão, arritmia, taquicardia, parada cardíaca. É uma droga perigosa. Eu não daria para um filho meu.

Terra Magazine

@giselecgs

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

"Um simples cérebro, sendo bem mais longo do que o céu, pode acomodar confortavelmente o intelecto de um homem de bem e o resto do mundo, lado a lado." Emily Dickinson
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." Nelson Rodrigues
"Cada um pense o quiser e diga o que pensa" Espinosa
"O animal satisfeito dorme" Guimarães Rosa
%d blogueiros gostam disto: