100 bilhões de saudades

Há 2 anos, no dia 01/05, perdemos Francesco Langone.

Francesco, além de excelente pesquisador era um mestre por excelência. Exigente, rígido, meticuloso, sempre preocupado com a formação dos seus estudantes. Essa preocupação também se estendia além dos limites da universidade. Resta-nos a memória de sua boa convivência, de seus ensinamentos e dos excelentes exemplos que ele nos deixou. Tenho certeza que essa memória será de longo-prazo, daquelas que permanecem não apenas anos, mas toda uma vida.

Segue o texto de Fabrício Donizete da Costa, em sua homenagem.

100 bilhões de Saudades – Homenagem ao Prof. Langone

A vida e as células neurais são comparáveis? Em alguns aspectos talvez. Tanto uma quanto a outra são enigmáticas. Ambas necessitam de conexões para estarem vivas. Dialogam constantemente, mesmo no terreno imperioso do silêncio. Ambas residem no mais singelo. São inquietantes por natureza. Ambas possuem um limite tão tênue que beiram ao infinito. Essas semelhanças, tão intercambiáveis, possibilitam que vida e neurônios se misturem de tal forma a produzir uma substância amorfa e única, cujo significado talvez seja tangenciado pelas palavras missão, ciência, sabedoria, afeto, educação, paixão. Vida e células neurais são parecidas até nas fragilidades: ambas são ceifadas pela morte.

Faço uso dessas reflexões para revogar a memória de um querido professor do IB. Do Básico essencial, cujos olhos hospitalocêntricos muitas vezes recusam a apreciar. Na última sexta-feira, primeiro de maio, nosso Prof. Francesco Langone, uma figura talentosa e dedicada, que no primeiro ano ministra aulas sobre a junção neuromuscular, e mais intensamente nos acompanha no segundo ano no módulo Neurociências, deixou nossas sinapses confusas com a sua morte. Tão hercúleo, se desdobrava para que não deixássemos de dar atenção a complicadas conexões, inter-relações imbricadas com efeitos fantásticos, corriqueiros aos olhos do dia-a-dia, do desconhecido. Nem a doença era-lhe um antagonista! Chegou a abrilhantar algumas aulas frente à sombra de uma doença.

Uma vez, em uma de suas aulas me perguntei se devido ao fato de os gatos terem sete vidas, seria por isso que eram tão usados para experiências. Eram um símbolo de resiliência e, ao mesmo tempo, de doação. Hoje me pergunto se este professor que agora descansa, tendo apenas uma vida aparente, mesmo perdendo esta única preciosidade, acaba que não a perdeu de fato, visto que sua lembrança é viva, uma conexão com o reforço positivo da dedicação pelo estudante, que não se apaga tão facilmente.

De fato seu pensamento veloz não era de fácil seguimento, sobretudo para neurônios iniciantes, frente aos 100 bilhões de parentes a conhecer. Entre oscilações da voz, um bálsamo inverso aos sonolentos, Prof. Langone fazia de bailarinas um perfeito arranjo labiríntico. Vida e neurônios, todos contra as quedas. E o mistério dos gatos que se desviram pela magia da conversa afinada entre aferências e eferências neurais.

Vida e neurônios, um mote forte para aqueles que a cunhagem dos sentimentos se vê dolorosa. Um professor dedicado, que nem as terminações livres em excesso ativadas conseguiu o foco desviar, não se pode encontrar rede neural que exprima uma gratidão de valor simbólico compatível ao que se recebeu em vida, de um professor por excelência.

No primeiro de maio, o trabalho de um professor se findou neste terreno. Trabalho este humanamente cumprido. Espero que a vista panorâmica seja agradável, que as estrelas sejam semelhantes aos neurônios, intensamente ativas, e que a neuroplasticidade imposta pela árdua e inevitável tarefa do luto, rearranjem a sua imagem no cantinho resguardado às saudades. Um santuário onde a vida reina soberana.

@larissaomfaria

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Suzi
    maio 03, 2011 @ 11:06:17

    Saudade!

    Resposta

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