Sweet Memories…

Somos seres sociais e sociáveis (às vezes não), nos relacionamos com o mundo e com tudo que nos cerca, e até mesmo com o que não vemos (quem sabe?). Temos nossa história, recebemos fortes influências culturais, selecionamos comportamentos que achamos mais adequados para determinada situação (nem sempre). Mas isso tudo é possível pois somos capazes de perceber os estímulos diversos e assimilá-los, ou seja, somos capazes de aprender, mesmo quando não percebemos. Nossa história, os fatos cotidianos são somente lembrados pois temos memória. Esta subsidia a visão de nós mesmos e do mundo, e determina como nos relacionamos com o(s) outro(s). Só isso!
A aprendizagem é o processo pelo qual nós e outros organismos adquirimos conhecimentos, tornando possível a modificação do comportamento em relação aos eventos do ambiente e as respostas do organismo. As experiências vivenciadas desencadeiam alterações celulares e moleculares no sistema nervoso central (SNC), resultando no aparecimento da memória.
A memória é o processo de consolidação, recuperação, reconsolidação, persistência e extinção das informações adquiridas. Mas o que são essas coisas? Bem, vamos por partes!
No momento da aprendizagem (aquisição de uma informação) até aproximadamente 3 horas o cérebro dos organismos em geral sofre as primeiras mudanças nos circuitos neuronais, resultantes da comunicação entre os neurônios (isto é sinapse!); esta fase inicial caracteriza a memória de curto-prazo ou memória recente, que é aquela que é recém-adquirida, fácil de esquecer. A memória recém-adquirida passa por um período de labilidade inicial, no qual tende a não ser recuperada, mas felizmente, em seguida, ocorre a fase inicial da consolidação da memória, a qual pode durar até 6 horas ou mais e requer a síntese de novas proteínas e a expressão de genes necessárias para produzir modificações estruturais estáveis das sinapses e nos circuitos neuronais. Portanto, a consolidação consiste no processo pelo qual novas memórias inicialmente vulneráveis à desorganização são fortalecidas ao longo do tempo, tornando-se uma memória de longo-prazo. Há também a presença de uma fase tardia da consolidação desta memória de longo-prazo, que pode durar dias até semanas, tornando o armazenamento desta permanente e persistente. Contudo, a reativação ou recuperação da memória de longo-prazo existente pode induzir novamente a um estado de instabilidade transiente, a qual requer re-estabilização da memória original. Este novo período é denominado reconsolidação e também requer nova síntese protéica.
A persistência da memória é uma das principais características da memória de longa-duração, mais remota (acima de semanas e meses), e envolve mecanismos neurais cuja ocorrência parece se repetir em ciclos (isto explica o porque a aprendizagem é mais eficaz em determinados períodos do dia). Mas isto entre indivíduos, de acordo com seus hábitos.
A memória ainda pode ser classificada de acordo com o seu conteúdo: memória explícita ou declarativa, que inclui o conhecimento sobre fatos ou eventos, cuja evocação requer um esforço consciente; e memória implícita ou procedimental está relacionada a comportamentos que se repetem com freqüência, condicionamentos reflexos ou habilidades motoras.
Entre as estruturas neurais que participam dos processos de aprendizagem e memória, está o hipocampo, o qual é responsável principalmente pela formação da memória recente, capacidade de reconhecimento de ambientes e configuração de estímulos sensoriais em particular. O hipocampo envia projeções se comunicando com outras áreas cerebrais, como o neocórtex, onde ocorre o armazenamento a longo-prazo da memória. Mas o hipocampo não deixa de ter seu papel a longo-prazo, ele ainda é essencial na evocação das memória remotas. Além disso, ele se conecta com outras estruturas do sistema límbico, responsável pelas nossa emoções. Uma delas é a amígdala, que participa dos processos de modulação e seleção de memórias relacionadas ao medo, prazer sexual, entre outros ‘sentimentos’…
E existe ainda a questão do esquecimento, que é imprescindível, ou imagina se nos lembrássemos de tudo que fizemos, cada detalhe do que vimos?! Tanta informação seria torturante! “Talvez o aspecto mais notável da memória é o esquecimento” (James McGaugh, 1971).
Existem principalmente dois tipos de esquecimento: repressão, que consiste no cancelamento da evocação de memórias que nos causam desagrado, mal-estar ou prejuízo (que bom!), podendo ser voluntária ou não; e a extinção, a qual consiste em um declínio na intensidade ou freqüência do comportamento aprendido, ou seja, ocorre uma nova associação, um novo aprendizado, que suprime a resposta original.
E por fim, recomendo a leitura de dois artigos brilhantes (segue links abaixo) entre tantos publicados por Ivan Izquierdo, grande cientista argentino que desenvolve suas pesquisas aqui no Brasil, pioneiro no estudo da neurobiologia da memória e do aprendizado. Vale a pena conferir pois não é necessário ter grandes conhecimentos técnicos, e além disso, vem acompanhando figuras que mostram a localização de estruturas centrais da aprendizagem e memória.

Memórias : aqui

A arte de esquecer : aqui

@larissaomfaria

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